De volta ao japonês (com Shin Megami Tensei)
Como o potencial wordcel que me revelo, sempre me diverti esboçando aprender um idioma ou outro, com graus maiores ou menores de sucesso. Fora o português nativo, fluência só posso alegar com alguma confiança no inglês, mas depois de bastante leitura consigo ler direitinho em espanhol em francês, além de ter cavoucado um pouco o básico de latim e grego ático. Além disso, de pouco em pouco, nos últimos dias venho dando uma olhada em ucraniano também.
Mas fatalmente o idioma a que sempre acabo voltando é o japonês.
Minha história com japonês é marcada por uns dez anos de idas e voltas, avanços consideráveis ou não, desistências e retomadas. Vários métodos que me levaram a um canto todo bagunçado com vários pontos cegos e áreas de maior e menor conhecimento. Deve ter sido o idioma ao qual eu dediquei de longe mais horas para pegar o básico, bem mais do que o francês e o espanhol, mas sabem como é: a distância menor desses dois facilitou demais o processo.
Meu interesse sempre foi movido mais por curiosidade e lazer do que por um desejo profissional ou constitutivo, de modo que nunca houve sentimento de obrigação ou pressão que me impelisse. Assim era fácil ficar anos sem avançar quando coisas mais importantes aconteciam na minha vida, como ficar atolado de trabalho ou ter um recém-nascido em casa para criar.
Apesar de estar já há uns anos sem me dedicar ao japonês de verdade, ainda tenho interesse em apreciar certas obras no original ou, sei lá, ser capaz de me virar com o idioma em uma eventual visita. Sempre acabo voltando, assim como a vontade voltou ao longo do mês. Desta vez, embarco movido pelo eventual desejo de ler literatura não traduzida (oi, 帝都物語) e acessar artigos acadêmicos de nicho (vide incursões em história das instituições medievais budistas no Japão). Com isso tudo em mente, tirei a poeira do meu método.

A verdade é que sinto já ter chegado a um ponto em que estudar já não fixa muita coisa. E, como sou proponente ferrenho do método natural, resta a fase da aquisição, o platô em que entrei há alguns anos depois de conseguir passar por alguns volumes de Yotsuba& no original. Percebi um padrão em que eu revezava imersão com um baralho pré-feito do Anki1 e alguns vídeos de aula no YouTube. Depois de um tempo, assim que o cansaço batia ou alguma outra faceta da vida exigia foco, a imersão, que era a parte mais exuastiva, acaba sendo cortada sem cerimônias. Depois ficava com preguiça das aulas e só me limitava a fazer o Anki, achando que isso fosse adiantarServia como uma desculpa interna — o "bem, pelo menos algo eu fiz" do dia —, mas não tinha muito efeito real.
Então, desta vez, vamos tentar uma abordagem mais enxuta. Sem deck pré-montado, apenas com termos extraídos das minhas leituras. Sem aula, também. A ideia é só ler, mesmo, e insistir, e sei que aos poucos vamos adquirindo o idioma na unha. Que é o método que todo mundo mais recomenda mesmo, então não estou redescobrindo a roda. Só me impelindo dessa vez a levar esse empreendimento a cabo.
Aproveitando uma promoção recente e afinidade temática com o que é meu objetivo com o aprendizdo, resolvi pegar os jogos da série Shin Megami Tensei para revisitar depois de dez anos. A familiaridade com os títulos me permite que eu já saiba de antemão mais ou menos o naipe dos diálogos e acontecimentos, o que tira um pouco da carga mental. Por outro lado, o vocabulário obtido deve vir a calhar mais a frente.
Comecei sexta-feira com Nocturne HD Remaster, o primeiro da minha lista. Demorei uma boa meia-hora para passar daquele prólogo da história, com seus diálogos e tudo, mas fiquei feliz de perceber que já consigo ler boa parte do que é dito sem imensa dificuldade. Meu vocabulário é medíocre e estou tendo que pesquisar muita coisa em alguns dos diálogos, enquanto outros fluem mais rápido. O bom é perceber que o que era a minha maior dificuldade, que é fazer o parsing das frases, já está melhor do que era nos anos anteriores. E creio ser questão de prática e costume, então imagino que devo ler melhor ao fim do jogo do que estou agora, perseverando.
Mas isso também só foi possível graças às benessas tecnológicas. A parte mais complicada dos idiomas com caracteres não alfabéticos é a dificuldade de simplesmente pesquisar uma palavra se você não tem acesso ao texto digitalmente. Consegui preparar um esquema com o LunaTranslator, que extrai o texto das caixas do jogo enquanto ele roda, possibilitando que eu use a extensão Yomitan para pesquisá-la no dicionário e adicionar um card automaticamente ao Anki, para meu deck de termos, se eu achar que vale a pena. Assim, o que quando comecei a estudar em 2017 demorava uma era, agora é relativamente rápido. E também ajuda a manter a fluência do jogo, porque se eu tivesse que demorar meia hora em cada diálogo, o avanço seria lento demais e me faria perder o ânimo.

Enfim, cheguei em Shibuya hoje cedo. Desejem-me sorte.
Aplicativo para criar baralhos de palavras para repetição seriada e fixação de significado.↩